Talvez o movimento das cores ao misturar e formar pessoas
incomode
Talvez o silêncio nas esquinas incomode...
Talvez o barulho dos pés batendo nas calçadas incomode...
Talvez o choro do bebê de colo, daquela mulher sentada no
ponto de ônibus incomode...
Talvez a música alta naquele barzinho incomode...
Talvez a conversa entre dois estranhos incomode...
Incômodos e mais incômodos...
Que mundo é esse que não sabe silenciar...
Que não sabe comunicar...
Esse, sem dúvida é o mundo real!
As pessoas levantam preguiçosas de suas camas todas às
manhãs e só sabem reclamar, reclamar, reclamar...
Talvez o silêncio nas esquinas seja porque algo aconteceu...
O barulho dos pés nas calçadas, as pessoas apressadas e
sonolentas indo para trabalho que ao invés de dignificar o homem o condena a
escravidão capitalista...
O choro do bebê é reflexo de uma doença, ou talvez até possa
ser uma mãe desamparada que como muitas precisam tirar seu bebê cedo de casa
para deixá-lo aos cuidados de outra pessoa, porque a política publica em
relação à mulher e a maternidade no Brasil ainda está bastante arcaica. Ou
ainda talvez porque um pai abandonou sua família, por que existe aborto, mas
não aquele feito pelas mulheres não! É o aborto de um pai que abandona a
família e desampara.
Talvez a música alta nos barzinhos seja a morfina encontrada
por muitas pessoas para esquecer a opressão do mundo e a tristeza das
desigualdades, raciais, sociais, de gênero...
E a conversa entre dois estranhos, esta reflete apenas o cotidiano,
você pensa que não incomoda quando conversa com as outras pessoas?
A vida é feita de doses diárias de morfina, mas você não
percebe, eu não percebo o quanto tudo nos oprime! Os padrões de beleza, as
construções sociais, os marcos delimitados entre classes sociais e suas
relações, a vida mesquinha de uns e a vida sofrida de outros.
Olha ao seu redor e perceba, pare um pouco e pense!
O povo tem fome de diálogos, o mundo está ficando solitário,
está se perdendo em reclamações, está esquecendo a essência da felicidade para
concentra-se na essência do lucro.
O mundo é feito de intenções, mas nem sempre elas são boas.
O mundo perde a cada dia mais a essência do seu verdadeiro
ser...
Morte, fome, violência... Abusos, desabusos, irritações,
pequenas discussões...
Pare e pense!
Não seria melhor vagar por aí como os andarilhos, é esses
mesmo que você despreza quando passa por eles... Ou fazer miçangas, talvez até
se tornar cigana...Viver como os verdadeiros donos do Brasil, eu não estou
falando dos políticos, estou falando dos indígenas, é sim, os verdadeiros donos
do país, que estão perdendo suas terras, seus espaços simbólicos, sua
ancestralidade, seus territórios...
E você aí preocupado com incômodos diários, pense um pouco,
reflita!
Nem tudo gira em torno de você, faça uma viagem pelos países
mais pobres do mundo, doe-se ao trabalho comunitário, viva o que os refugiados
dos emirados vivem, viva o que as crianças pobres da Etiópia vivem... E talvez
nem precise você ir tão longe, viva o que as pessoas que moram nas favelas do
Rio de Janeiro, São Paulo, vivem...
Olha para o outro e sinta-se no outro e verá que seus
incômodos são coisas passageiras, mas o
que eles vivem é realidade. Nua e crua! E mesmo assim, eles continuam a viver
sem reclamar da sua conversa, do bater de pés, do choro das crianças, das
conversas...
Seja feliz com o pouco, a sabedoria não vem do lucro, vem do
cérebro, vem da alma... Vem da essência e da vontade incessante de aprender!
Por Janaine Moreira
dos Santos