Hoje sou revolta!
Percebi que as ladeiras do mundo machucam, os pés enchem de calo e tenho dores na alma. Hoje encontrei um menino na calçada de casa, sem calçado aos pés, com olhos fundos, com blusas puídas, mas com alegria nos olhos que só as crianças possuem. Inocente e frágil me olhou fundo nos olhos e eu imaginei ele me dizendo "tia você não teria um trocado pra que possa levar para minha mãe comprar alimento, nós estamos precisando, meu pai está tentando, mais tenho pena dele, ele trabalha tanto e no final do dia pouco retorno recebe" ele não me disse essas palavras, mais a minha alma ouviu isso, meus olhos marejados e eu não tendo nada para oferecer, me senti pequena, incapaz... Num momento você poderia parar para pensar e perceber ai da sua casa, embaixo do seu cobertor quentinho, tendo alimentos para o amanhã, o sofrimento do outro; você assim como eu já parou para pensar na hipocrisia do mundo.
Por isso, hoje sou revolta, estou revoltada. Revoltado com desigualdades, com a tristeza, com o amanhã, com a necessidade do outro que não é suprida, com vida gélida e cálida de quem não tem onde dormir, com a simplicidade de uma criança que não compreende muito o que se passa, do menino que nasceu na periferia e só escuta do mundo não, que só encontra portas e empecilhos.
Hoje sou revolta, porque nós fechamos no nosso mundo e nos esquecemos do próximo, porque julgamos pela cor, pelo credo, pela posição social, pela carreira, porque esquecemos que a escalada rumo ao alto é desigual, porque reclamamos de coisas fúteis... sou revolta, sou tristeza. E quando mais penso nessas situações mais meu coração se quebra em pedaços, minha alma se desfaz e eu morro aos poucos por dentro. Morro aos poucos, pois é difícil perceber-se num mundo onde o humano, a vida são deixados pra lá por disputas de poder, por entraves políticos, por um individualismo exacerbado e uma adoração eterna do eu, esquecendo-se que na história as grandes coisas foram fruto do nós!
POR JANAINE MOREIRA DOS SANTOS
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